A Saga
CAPÍTULO 2 - "O bom filho ao lar retorna"
Depois de passar cinco anos fora, conhecendo os conflitos e agitos da cidade grande, Manoel Mirosmar volta frustrado para o aconchego de sua velha casinha de sapé e sua pacata rotina na roça. Carregando em sua pequena bagagem um Mp3 Player que comprou na Santa Ifigência por R$50, já devidamente abastecido com os principais clássicos do Manowar, Iron Maiden, Judas Priest, Angra e Sepultura, Mirosmar desembarcou na rodoviária de Goiânia usando óculos "raiban" espelhado, trajando um colete jeans coberta de 'pats' de bandas de Heavy Metal, peito peludo à mostra e exibindo ainda uma tatuagem de ferradura no braço direito, que acabou chocando um pouco os parentes e amigos que esperavam aquele sertanejo simples de outrora.

Além de estar mais "moderno", todos esses anos longe de sua terra natal fizeram Mirosmar ganhar um sotaque paulista e perder o bronzeado de sertanejo. Mas apesar de toda panca de "artista", Mirosmar ainda preservava o velho corte de cabelo "mulet" à la Chitãozinho & Xororó de início de carreira, e no fundo continuava sendo o mesmo peão de sempre. Foi emocionante o reencontro com sua família, ver o quanto seus onze irmãozinhos estavam crescidos e poder matar a saudade dos velhos amigos e da cabritinha que havia sido tão íntima na sua adolescência e agora divertia seus queridos irmãozinhos mais novos.

Mas o ritmo frenético de viver numa cidade grande havia contagiado Mirosmar, que na semana seguinte já começava a se entediar com a calmaria da fazenda e o marasmo de sua rotina no campo. Ninguém suportava que ele escutasse Heavy Metal em casa, e a saída era levar o Mp3 Player quando ia capinar sozinho na roça e ficar batendo cabeça usando a enxada como se fosse o pedestal de seu microfone, tendo como companheiro apenas o velho espantalho gigante, que Mirosmar carinhosamente apelidou de "Capiau". Construído pelo seu avô na década passada, de tão grande, Capiau balançava ao vento, dando impressão que 'bangeava' junto com Mirosmar, que fazia de conta que o espantalho era a mascote Eddie do Iron Maiden, enquanto tentava imitar o cantor Bruce Dickinson, desafinando, errando todas letras e cantando um inglês pior que a bela mulata Solange, do "BBB4", de tão invejável intelecto. Mas o espantalho Capiau agüentava firme, tornando-se para Mirosmar uma espécie de amigo metaleiro imaginário.

Porém, o trabalho na lavoura já não mais o cativava como antes e os cantores sertanejos da cidade já não queriam mais formar dupla com Mirosmar, pois agora as influências Heavy mais agressivas agregadas ao seu atual visual e estilo de cantar eram recebidas como heresia nos redutos sertanejos mais ortodoxos. A vida parecia sem rumo para o jovem Mirosmar, quando então o famoso cantor sertanejo que era proprietário da fazendo onde sua família vivia e trabalhava, resolveu convocar todos os peões para assistirem num telão improvisado no curral, uma sessão do filme que contava a trajetória de vida de outra famosa dupla, muito amiga de seu patrão. Era o filme "Dois Filhos de Francisco", cujo protagonista Zezé Di Camargo era outra grande inspiração para Mirosmar como cantor, além de ser seu xará em seu nome de batismo. A mensagem daquele filme mudaria a vida de Mirosmar, que aprendia que se você acredita de verdade num sonho, se você deseja muito algo e batalhar de verdade por aquilo, não importa os obstáculos e dificuldades, você é capaz de conseguir qualquer coisa!

Aquilo ficou na cabeça de Mirosmar, que como havia passado a tarde toda tomando cachaça para afogar as magoas de uma vida tão vazia, acabou adormecendo em plena sessão no filme. Foi quando o jovem e sonhador goiano teve uma grande revelação. Talvez pelas altas doses de cachaça que bebera durante à tarde, ou pela sessão improvisada de cinema estar sendo exibida dentro do curral da fazenda, a questão é que durante o sono, Mirosmar foi acordado por uma vaca, que disse para ele: "Misifi... agora menino goiano cresceu é não é mais Manoel Mirosmar, agora é 'Zezé Cavalera'... Volte para a cidade grande e mostre aos metaleiros o que é sertanejo... E aos sertanejos o que é Heavy Metal... múúúhh".

Mirosmar acordou de verdade no meio na sessão, atordoado pela bizarra aparição da vaca-metaleira em seu sonho, e ainda teve tempo de pegar a parte final e mais emocionante do filme, quando a real família Camargo inteira subiu ao palco para cantar juntos "No dia que saí de casa". Mirosmar era outra pessoa depois daquilo. De fato, agora ele era "Zezé Cavalera", uma homenagem a dois de seus maiores ídolos. Pois bem, depois da ressaca, no dia seguinte o jovem goiano reuniu a família para avisar que, assim como seus conterrâneos Camargo, voltaria a São Paulo para lutar pelo seu sonho. Dito e feito. No final daquele mesmo dia, nosso incansável goiano juntou suas economias, foi ao guichê da empresa Real Expresso e comprou uma passagem de volta para a selva de pedras.
